|
Artigo: A miséria moral dos ex-esquerdistas
|
|
|
Em lapidar artigo, o amigo
das boas causas, professor e sociólogo Emir Sader, dirigente do Laboratório de
Políticas Públicas da UERJ fulmina a degeneração ideológica. Texto publicado
originalmente em seu blog, na Agência Carta Maior.
A
miséria moral de ex-esquerdistas
Alguns sentem satisfação
quando alguém que foi de esquerda salta o muro, muda de campo e se torna de
direita – como se dissessem: “Eu sabia, você nunca me enganou”, etc., etc.
Outros sentem tristeza, pelo triste espetáculo de quem joga fora, com os valores,
sua própria dignidade – em troca de um emprego, de um reconhecimento, de um
espaçozinho na televisão.
O certo é que nos
acostumamos a que grande parte dos direitistas de hoje tenham sido de esquerda
ontem. O caminho inverso é muito menos comum. A direita sabe recompensar os que
aderem a seus ideais – e salários. A adesão à esquerda costuma ser pelo
convencimento dos seus ideais.
O ex-esquerdista ataca com
especial fúria a esquerda, como quem ataca a si mesmo, a seu próprio passado.
Não apenas renega as idéias que nortearam – às vezes o melhor período da sua
vida -, mas precisa mostrar, o tempo todo, à direita e a todos os seus poderes,
que odeia de tal maneira a esquerda, que já nunca mais recairá naquele “veneno”
que o tinha viciado. Que agora podem contar com ele, na primeira fila, para
combater o que ele foi, com um empenho de quem “conheceu o monstro por dentro”,
sabe seu efeito corrosivo e se mostra combatente extremista contra a esquerda.
Não discute as idéias que
teve ou as que outros têm. Não basta. Senão seria tratar interpretações
possíveis, às quais aderiu e já não adere. Não. Precisa chamar a atenção dos
incautos sobre a dependência que geram a “dialética”, a “luta de classes”, a
promessa de uma “sociedade de igualdade, sem classes e sem Estado”. Denunciar,
denunciar qualquer indício de que o vício pode voltar, que qualquer vacilação
em relação a temas aparentemente ingênuos, banais, corriqueiros, como as
políticas de cotas nas universidades, uma política habitacional, o apoio a um
presidente legalmente eleito de um país, podem esconder o veneno da víbora do
“socialismo”, do “totalitarismo”, do “stalinismo”.
ESPETÁCULO
Viraram pobres diabos, que
vagam pelos espaços que os Marinhos, os Civitas, os Frias, os Mesquitas lhes
emprestam, para exibir seu passado de pecado, de devassidão moral, agora
superado pela conduta de vigilantes escoteiros da direita. A redação de
jornais, revistas, rádios e televisões está cheia de ex-trotskistas, de
ex-comunistas, de ex-socialistas, de ex-esquerdistas arrependidos, usufruindo
de espaços e salários, mostrando reiteradamente seu arrependimento, em um
espetáculo moral deprimente.
Aderem à direita com a
fúria dos desesperados, dos que defendem teses mais que nunca superadas,
derrotadas, e daí o desespero. Atacam o governo Lula, o PT, como se fossem a
reencarnação do bolchevismo, descobrem em cada ação estatal o “totalitarismo”,
em cada política social a “mão corruptora do Estado”, do “chavismo”, do
“populismo”.
Vagam, de entrevista a
artigo, de blog à mesa redonda, expiando seu passado, aderidos com o mesmo
ímpeto que um dia tiveram para atacar o capitalismo, agora para defender a
“democracia” contra os seus detratores. Escrevem livros de denúncia, com
suposto tempero acadêmico, em editoras de direita, gritam aos quatro ventos que
o “perigo comunista” – sem o qual não seriam nada – está vivo, escondido detrás
do PAC, do Minha Casa, Minha Vida, da Conferência Nacional de Comunicação, da
Dilma – “uma vez terrorista, sempre terrorista”.
Merecem nosso desprezo, nem
sequer nossa comiseração, porque sabem o que fazem – e os salários no fim do
mês não nos deixam mentir, alimentam suas mentiras – e ganham com isso. Saíram
das bibliotecas, das salas de aula, das manifestações e panfletagens, para
espaços na mídia, para abraços da direita, de empresários, de próceres da
ditadura. |
|
Todos os direitos reservados - Sindicato dos Bancários de Umuarama, Assis Chateaubriand e Região. .:: Desenvolvido by Erval